sábado, 18 de outubro de 2008

Utopia do cotidiano

Desafiando a ditadura militar, o artista plástico pernambucano Paulo Bruscky e um grupo de amigos realizam performance no topo de um prédio em Recife: a arte fora dos museus, galerias e demais instituições.

No centro de Recife, Paulo Bruscky realiza performance com uma mala de concreto
Considerado um dos mais importantes artistas da cena contemporânea, o pernambucano Paulo Bruscky vem realizando, desde os anos 70, pesquisas e experimentações no campo da arte conceitual, happenings, copy art ,multimeios, entre outros. Seus trabalhos já foram expostos em diversos países, salões e mostras individuais e coletivas. A poesia visual de Bruscky parece não ter limites, está sempre respirando e inspirando vida. Ela é, no dizer da crítica de arte Cristina Freire, um verdadeiro ´arquivo vivo´. Simplesmente, um arquivo dinâmico que está em constante movimento.Misturando, assim, a história com uma forte carga afetiva de memória em seu diálogo com a vida, o cotidiano, a arte

Você sempre teve um posicionamento contrário aos salões, realizando, inclusive, trabalhos como o ´Etiqueta´, onde criticava essas manifestações. Hoje, o que pensa sobre o assunto?

Para começo de carreira, os salões são importantes porque é uma forma de dar visibilidade ao trabalho do artista. No meu caso, participei de alguns, chegando a ganhar o meu primeiro prêmio, aos 20 anos, no Salão de Pernambuco. Mas, com o tempo, fui caindo numa realidade de que os salões eram uma coisa manipulada e os júris já tinham um nome no bolso. Cheguei, portanto, num ponto de não submeter o meu trabalho a júri. Acho que os salões são importantes, porém, devem sofrer reformulações. Cada época tem características próprias, que precisam ser consideradas. Atualmente, penso que é necessário estimular a pesquisa no campo artístico, por meio da distribuição de bolsas de incentivo a pesquisas artísticas.

Como você vê a relação arte-vida? É possível dissociá-las?

Há tempos que, quando crio, procuro enfatizar a disfunção da minha idéia, ou melhor, a utilidade desta idéia. Porque quando você cria algo já pensando na utilidade, você já mata a ´coisa´. Todo dia eu penso e crio. Se não o fizer, enlouqueço. Arte e vida são uma coisa só, não há qualquer dissociação.

Em sua opinião, o que é ser um artista contemporâneo? Que perfil ele deve ter?


Primeiro de tudo, você tem que ser contemporâneo de si próprio. Sendo contemporâneo de si mesmo, você será atual sempre. O artista tem que saber o que passa pela sociedade para, posteriormente, trabalhar em cima disso. Eu, por exemplo, estou todo os dias lendo, pensando e criando. É um processo que faço constante na minha vida.

Em sua opinião, por que é que as pessoas, ainda, têm dificuldade para entender a arte contemporânea?

Há dois fatos ai, que acho fundamentais para comentar. Primeiramente, destaco a falta de conhecimento, de embasamento e a preguiça de pensar de algumas pessoas. A Psicanálise mostra que uma forma de negação, é você rir diante de um fato ou realidade que não conhece, ou seja, diante de uma obra que você não conhece e nem pode se aprofundar, porque não tem repertório para isso. Então, há uma negação. Sempre existiu a arte contemporânea e os contemporâneos sempre foram na história da arte, relembrando, por exemplo, as ações do Futurismo, do Dadaismo e do Fluxu, rejeitados pela maioria. As pessoas estão mais preocupadas em ganhar dinheiro. A cultura sempre foi uma minoria numa sociedade marcada pelo efêmero.

Você acha que as arte visuais e plásticas são deixadas para segundo plano ?Não são muito estimuladas?

Sim, porque não tem como estampar a marca de uma empresa na camisa da gente. A gente não joga futebol e nem tem platéia como os artistas do teatro e da música. Ou melhor, isso é importante para os políticos, que querem ter um retorno de mídia e, assim, poderem angariar votos. Nós não trabalhamos para o grande público, nós fazemos uma coisa mais fechada, quer dizer para dentro mesmo. Isso garante uma liberdade maior, porque, normalmente, os artista de artes visuais não tem um compromisso, embora, hoje, se trabalhe integrado com outras áreas. Podemos fazer uma arte mais livre, pois não temos esse retorno de mídia e do público. Mídia, posso dizer até que tem mais um pouco. Agora, não se tem um retorno assim de investimento de um investidor (patrocinador), é bem restrito.

No seu trabalho podemos observar a presença de ´fortes doses´ de humor. Explica isso?

No meu trabalho eu lido muito com o humor, irônia e, também, com o jogo de palavras. Eu sou um cara bem humorado e sempre gostei de trabalhar com a questão do humor. (O escritor) Millôr Fernades tem uma frase de que gosto muito e considero bastante: ´o humor é díficil, porque você tem que fazer cócegas no cérebro. Isso é que é o humor verdadeiro´.

E como se dá a idéia do ´arquivo vivo´ em seu trabalho?

Acho que em outra vida fui arquivista. Eu gosto disso! Tenho o maior prazer de organizar e realizar amostras dos meus trabalhos e de alguns amigos. Desde novo, tenho consciência de que os trabalhos que meus contemporâneos e eu faziámos eram uma coisa relegada, e alguém tinha que preservar isso, permitindo a discussão posterior.

Vivendo às custas do trabalho como funcionário público, e nunca vendendo obra, o que pretende com esse posicionamento? O que acha do artista que vende seus trabalhos?

Eu acho que quando estes artistas vão deitar no travesseiro para dormir, não conseguem dormir. Tudo isso é como se fosse uma espécie de doença,onde este artista acaba acreditando na própria mentira. Quando vão botar aquele travesseiro para dormir, eles vão se questionar sobre aquela mentira. Porque tem outras formas de você sobreviver sem prostituir o seu trabalho. Não sou contra vender obra, desde que isto seja feito de uma forma bastante limpa, real e coerente.

FIQUE POR DENTRO

Palavras de um artista à margem da crítica


Abrindo a programação de entrevistas do 59° Salão de Abril, o artista Paulo Bruscky, num bate-papo realizado na Vila das artes, na noite da última quinta-feira, contou ao público presente, um pouco de sua trajetória artística, principalmente, na época da Ditadura Militar. O artista, também falou sobre a situação em que se encontra a crítica de arte na contemporaneidade. ´Lembro que era muito difícil fazer arte naquela época. Certa vez, num interrogatório, um policial disse que a minha arte era muito abstrata, daí me perguntou se ele pegasse um pedaço do piso (era de madeira) e dissesse que aquilo era arte, se seria? Respondi que não, mas se fosse eu que o fizesse, ai sim seria arte! Quase apanhei com isso´, diz ele. Com relação à crítica de arte, o artista ressaltou que ela é necessária quando é boa e séria. Destacou, inclusive, a importância de críticos, citando Cristina Freire e o cearense Mário Barata. Porém, afirmou que ´a crítica está sempre à margem da margem´.

ARTE

"Arte, arquivo e utopia"
Paulo Bruscky
R$ 100
272 páginas
2006
Companhia Editora de Pernambuco

sábado, 4 de outubro de 2008